Artista apresenta em João Pessoa um espetáculo que transcende o formato de show e propõe uma experiência ritualística, unindo a banda de palco à ‘gira’ das tradições afro-brasileiras.
JOÃO PESSOA – Em um movimento que reforça a efervescência cultural para além do eixo Rio-São Paulo, o cantor e compositor Paulo Rafael desembarca em João Pessoa nesta sexta-feira (29) para uma apresentação única de seu aclamado show “Bandagira”. O palco escolhido, a Vila do Porto, já é em si uma declaração de intenções: um espaço conhecido pela curadoria apurada e por abrigar propostas artísticas que dialogam com a vanguarda e a raiz.
O espetáculo, que tem circulado por palcos selecionados pelo país, é mais do que uma sucessão de canções; é uma imersão em um conceito cuidadosamente elaborado. E a primeira curiosidade, que serve como chave para toda a experiência, está no próprio título.
Curiosidade 1: O que é a “Bandagira”?
O neologismo criado pelo artista é uma fusão de dois universos potentes. “Banda” remete, claro, ao coletivo de músicos que o acompanha no palco, à instrumentação e aos arranjos. Já “Gira”, de forma mais profunda, evoca os rituais circulares de religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé. A “gira” é o momento de comunhão, de invocação de energias e de repetição de cânticos que levam a um estado de transe coletivo. Ao unir os termos, Paulo Rafael propõe que seu show seja uma espécie de “terreiro sonoro”, onde a música é o elemento condutor de uma celebração comunal.
Curiosidade 2: O Músico como Antropólogo
Visto no palco, Paulo Rafael (foto) é a personificação de sua música: um amálgama de referências. Suas vestimentas, que mesclam estampas afro com cortes contemporâneos, e seu violão de nylon, empunhado quase como um objeto de poder, não são acessórios casuais. Fazem parte da narrativa de um artista que se posiciona como um pesquisador de sonoridades. Sua música bebe tanto na fonte do Clube da Esquina e da Tropicália quanto nos cânticos de congado de Minas Gerais e nos maracatus de Pernambuco. “Bandagira” é o resultado dessa longa itinerância, não apenas geográfica, mas espiritual.
Em conversa por telefone, o artista reflete sobre o conceito. “A ‘gira’ só acontece de verdade quando a energia do palco e da plateia se torna uma só, em um ciclo. E um lugar como a Vila do Porto, com sua vocação para encontros, para o embarque e desembarque de ideias, é o terreiro perfeito para isso”, afirma Rafael.
Curiosidade 3: A Escolha do Porto
A decisão de apresentar um show tão conceitual em João Pessoa, e especificamente na Vila do Porto, não é fortuita. O local, um antigo armazém revitalizado, carrega a simbologia do porto como um lugar de trocas, de chegadas e partidas – uma metáfora perfeita para a música miscigenada do artista. A apresentação se insere na crescente cena paraibana, que tem se destacado por revelar nomes que fogem do óbvio e por formar um público ávido por novas experiências estéticas.
Para quem estiver na capital paraibana, a noite de sexta se desenha como uma oportunidade rara de testemunhar um artista em seu auge criativo, em um espetáculo que convida o público não apenas a ouvir, mas a participar de um ritual onde a música brasileira é, ao mesmo tempo, prece e celebração.
SERVIÇO
O quê: Show “Bandagira”, com Paulo Rafael
Quando: Sexta-feira, 29 de agosto, às 21h
Onde: Vila do Porto – João Pessoa (PB)