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O Canto das Claras: Tributo em João Pessoa reúne quatro vozes para celebrar o legado da ‘Guerreira’

Show na Vila do Porto, em um raro horário vespertino, propõe uma releitura polifônica da obra de Clara Nunes, figura-chave na afirmação da identidade afro-brasileira na música popular.

JOÃO PESSOA – Poucas artistas na história da música brasileira permanecem tão vivas no imaginário afetivo e cultural do país quanto Clara Nunes (1942-1983). Mais de quatro décadas após sua partida precoce, a “Guerreira”, como foi imortalizada em um de seus maiores sucessos, continua a ser uma fonte de inspiração inesgotável. É para celebrar e revisitar essa obra monumental que a Vila do Porto, em João Pessoa, abre suas portas na tarde deste sábado (30), para um tributo que se destaca pela sua concepção coletiva.

O espetáculo “Tributo à Clara Nunes” reunirá no mesmo palco as cantoras Clara Bione, Eliza Leão e Soraya Longo, acompanhadas pelo músico Alemares. A proposta foge do formato tradicional de um intérprete único para abraçar uma pluralidade que, em si, já é uma homenagem à própria homenageada.

Curiosidade 1: Por que quatro artistas?

A escolha de um coletivo de vozes para interpretar Clara não é um mero detalhe de produção, mas o cerne do conceito artístico. A obra da cantora mineira é vasta e multifacetada demais para ser contida em uma única perspectiva. Há a Clara do samba-enredo apoteótico da Portela, a Clara do partido-alto contagiante, a Clara lírica das canções de amor e, talvez a mais importante, a Clara devota, que cantava para os orixás e entidades da Umbanda com uma naturalidade inédita na indústria musical. A proposta do tributo é que cada uma das intérpretes – com suas timbragens e trajetórias distintas – ilumine uma faceta diferente desse diamante, criando uma releitura que é, ao mesmo tempo, um panorama fiel e uma interpretação renovada. Alemares, por sua vez, assume o papel de tecelão, costurando essas vozes com arranjos que respeitam o original ao mesmo tempo que o atualizam.

Curiosidade 2: O show à luz do dia

Outro ponto que chama a atenção é o horário da apresentação: 16h, um sábado à tarde. A escolha quebra o protocolo dos shows noturnos e busca uma atmosfera de confraternização, mais próxima de uma roda de samba de fundo de quintal ou de uma celebração de terreiro – universos que eram a alma da obra de Clara. A luz do dia convida a uma experiência mais comunitária e menos formal, onde a energia do axé, tão presente nas canções da “Guerreira”, pode fluir de maneira mais orgânica entre o palco e a plateia.

“Cantar Clara não é fazer um cover, é pedir licença para entrar em seu universo”, comenta a cantora Clara Bione, uma das idealizadoras do projeto. “Cada uma de nós traz uma chave diferente para abrir uma porta desse panteão. A ideia é que o público saia com a sensação de ter visitado a casa dela, em plena luz do dia, e participado de uma grande festa em sua honra.”

Curiosidade 3: A relevância permanente

Numa época de intensos debates sobre representatividade e identidade, revisitar a obra de Clara Nunes é um ato de profunda relevância. Ela foi a primeira cantora a vender mais de 100 mil cópias de um disco no Brasil, quebrando barreiras comerciais, mas seu maior feito foi ter levado a cultura e a religiosidade afro-brasileira para o horário nobre sem concessões ou estereótipos. Cantar “O Canto das Três Raças” ou “Conto de Areia” hoje é reafirmar um Brasil plural que Clara defendeu com a força de sua voz.

O tributo na Vila do Porto, portanto, é mais do que um evento musical. É um ato de manutenção da memória, uma celebração da força feminina e a passagem de um bastão sagrado para novas vozes que entendem a responsabilidade de cantar o Brasil profundo que Clara Nunes ajudou a revelar.

SERVIÇO

Tributo à Clara Nunes, com Clara Bione, Eliza Leão, Soraya Longo e Alemares

Quando: Sábado, 30 de agosto, às 16h

Onde: Vila do Porto – João Pessoa (PB)

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